quarta-feira, 22 de março de 2017

Meu namorado é cineasta — Paulo V. Santana




acordo
engasgado com um poema, cumpro um ritual
– não há espaço para a poesia


ando na rua, pego um ônibus, vejo pessoas
pessoas falantes, sonolentas, arrumadas, bagunçadas
– será que elas têm poesia?
(na boca? na cabeça? na bolsa?)


chego no colégio cedo, vejo colegas preocupados
não por causa disso, poesia, mas pelo teste
que vai acontecer
a primeira aula não acontece, a professora de literatura está doente
– muita poesia tem efeito colateral?


o tempo passa, o teste chega, a ansiedade grita
finalmente escrevo
escrevo números pensados por outras pessoas
escrevo cálculos tão elaborados que são quase poesia
quase
– o que define poesia?


hora do recreio, dia de profissões
(quase) todos vestidos do que “vão ser quando crescer”
meu namorado é cineasta
minha amiga é cineasta
minha outra amiga é fã de música coreana
– há poetas entre médicos, jogadores de futebol, professores, artesãos?


aula seguinte de francês, lemos textos sobre acontecimentos inusitados
quebras de rotina que são como poesia
– é possível uma rotina com poesia?


no fim da aula, encontro meu namorado numa oficina de literatura
ele encontrou poesia
ele ouviu poesia
ele escreveu poesia
lembro do poema que estava preso na garganto
o incômodo volta
– meu namorado é poesia?


almoço do dia: arroz, feijão, carne (sem batata) e conversas
conversas sobre aulas
sobre relacionamentos
sobre faculdade
não sobre poesia
– o que eu sei falar sobre poesia?


depois, meu namorado diz que tem algo a me mostrar
o poema Navio Negreiro, do Castro Alves
começo a ler, até que percebo que são seis páginas e paro
esse aqui tem só três
– consigo fazer mais?


chegou a minha vez de fazer a oficina
dessa vez é numa sala de espelhos que já viu muitos dançarinos
acho que a literatura encontrou o seu lugar
– existe lugar certo para a poesia?


enquanto ouço meu professor ler poesia,
escrevo um poema na cabeça
gosto do que chega os meus ouvidos
e do efeito que essas palavras têm em mim
– qual a diferença entre ler e ouvir um poema?


começo a escrever este poema
vermelho traduz o meu sangue
a mão que escreve é a mão da punheta
– é biologicamente possível gozar lendo um poema?


estou atrasado, preciso terminar este poema
todo poema tem seu fim
mas a poesia (ou não) está sempre por aí
ainda sinto um incômodo na garganta
o poema que estava (e está) entalado é outro
– como se livrar do peso de algo não escrito?



(escrito sob efeito de “blind light”, em maio de 2015)



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conheci o paulo santana aqui em são paulo
e ele me deu essa plaquete de 2015
cuja capinha abre o post
livro que cabe na palma da mão: 
"meu namorado é cineasta"

de vez em quando posto aqui uma série de "poemas-que-conversam-com-o-teste de resistores"

e é uma alegria retomar a série com o poema do paulo
que vai sendo pautado por tantas perguntas

o paulo fez esse poema em maio de 2015 em uma oficina com o luis guilherme barbosae em junho de 2016 ele escreveu uma resposta 

ao seu próprio poema, que segue abaixo.


o paulo v. santana eventualmente posta no blog estacaodonada.blogspot.com.)

o paulo v. santana tem 19 anos e é mais um carioca morando em são paulo


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poema-resposta
(junho de 2016; resposta à plaquete “Meu namorado é cineasta”)


nos seis meses que passaram
ninguém nasceu
mas muitos morreram


a busca pelo (meu) lugar da poesia continua
encontro na cidade
uma outra cidade


é como ele disse
são paulo é o texto que eu escreveria


a voz que dita poesia mudou
a mão que masturba não escreve
ainda não li Navio Negreiro
agora o feijão é carioca


meu namorado não é cineasta
meu namorado não é meu namorado
meu namorado não


e
dos poemas que escrevi
talvez
eu
não
seja
(o)
escritor

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Sra. Darwin – Carol Ann Duffy

7 de abril de 1852
Passeio no zoológico.
Eu disse a Ele –
Alguma coisa naquele Chipanzé ali me lembra você.




*




"sra. darwin" é um poema deste livro "the world's wife" (cuja capinha está aí em cima)
todo feito com poemas na voz das "esposas".
a carol ann duffy é uma poeta escocesa que nasceu em em Glasgow, em 1955.
ela começou a publicar nos anos 70 e tem algumas dezenas de livros

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Felicidade – Ledusha



nada como namorar
um poeta marginal
incendiado
nada
como um mingau de maizena
empelotado
de tanto amor acumulado
uma casinha em botafogo
um quarto uma eletrola
uma cartola
                      &
depois da praia sonhar
que a bossanova voltou
pra ficar
eu você joão
girando na vitrola sem parar.



"felicidade" é do livro risco no disco, da ledusha, 
publicado pela primeira vez em 1981 (capinha que abre o post)
e reeditado agora pela luna parque (capinha de baixo).

sábado, 20 de agosto de 2016

Cândida – Chacal





acabou de sair
tudo (e mais um pouco)
reunião da obra do chacal pela incrível editora 34!
e revendo e relendo o chacal
acabei encontrando esses dias essa gravação de "cândida"
numa versão que saiu encartada na revista bric-a-brac, de brasília, 
num disquinho preto molenga (segundo o chacal nos anos 80).
a base do poema é uma composição 
de carlos henrique resende - o nanico.
esse foi o primeiro poema do chacal que conheci
conheci o chacal pela escuta
conheci o chacal pela voz
conheci o chacal ouvindo um poema
deixo aqui minha alegria pela chegada do tudo
com essa gravação linda de 'dama daminha'...








terça-feira, 2 de agosto de 2016

Três homens – Bernadette Mayer





descansando
Três homens descansam. Eles se mexem.
homens falando
uma garota olhando uma caixa
Tem três homens num barco. Eles trabalham.
um homem viajando
garotas esperando
Homens falando e cantando. Eles estão dormindo
um garoto de nove anos
três homens se mexendo
Uma garota olha uma caixa. Ela se debruça.
homens cantando
uma garota se debruçando
Ela está usando um casaco. Um homem viajando
ganha um prêmio.
um homem ganhando um prêmio
garotas piscando
Tem um homem na casa de luz. Tem outro comprando um relógio.
um garoto de azul
três homens num barco.
Garotas que estão esperando. Garotas  que estão piscando.
homens dormindo
uma garota usando um casaco
Garotas em uniforme andando de skate
um homem na casa de luz
garotas andando de skate
Um garoto de nove, de azul, perto da montanha.
um garoto perto da montanha
três homens trabalhando
três homens descansam. Eles se mexem.
um homem comprando um relógio
Tem três homens num barco. Eles trabalham.


***

a bernadette mayer nasceu em 1945
a bernadette mayer nasceu no brooklin
a bernadette mayer fez parte da escola de nova iorque 
            e do movimento da l=a=n=g=u=a=g=e p=o=e=t=r=y
"três homens" está no livro poetry, de 1976
a imagem que abre o post é da niki de saint phale, artista francesa (1930-2002)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um compatriota punjabi no metrô de Barcelona – Amarjit Chandan





Quando você olhou
pensei aquele senhor está me olhando.

Você está sozinho?
Não veio mais ninguém?

Não posso trabalhar agora:
Não sou tão velho assim – pouco mais de vinte e cinco.

Estou aqui há seis anos.
A metade desse tempo passei em pé, preparando rotis no fogão dos restaurantes.
O dinheiro de Deus.
Muitos garotos enlouqueceram e se suicidaram.
Hipotecamos para o futuro o conforto de hoje.

Bahawalpur e Barcelona se distanciam cada vez mais.
A casa é uma ilha boiando no vasto oceano.

O sol dessa cidade acolhe todo mundo.
Deixe a neblina de Londres e venha morar aqui.

O metrô vai parar na próxima estação.

Descendo ele suspirou e disse:
Que época para suportar a dor.

E desapareceu abrindo caminho pela multidão.


**

amarjit chandan nasceu em nairobi, em 1946, e é um poeta de língua punjabi
amarjit chandan imigrou para londres em 1980
traduzi esse poema de uma versão em inglês (feita pelo próprio amarjit)
publicada na revista "modern poetry in translation" (mptmagazine.com)
– num número especial dedicado aos refugiados, 
"the great flight, refugee focus", 
cuja capinha está no post de ontem –, 
presente lindo que ganhei 
do rob packer (thanks, rob!)